Teatro da Morte • Radyr Gonçalves

NÚPCIAS - RADYR GONÇALVES

O corpo levitava. Um naco de lua boiava na boca do oitão. O céu era um quarto. O quarto era o céu. Divinas poesias eram recitadas entre uma nota e outra daquela santa profanação. Teve o templo saqueado ao som de uma música jamais ouvida. Rendidos estavam, perdidos entre nuvens de linho. Encontraram ali o caminho ditoso, a vastidão de um prazer nunca sentido. Um gozo lauto deu um brilho incomum a sete estrelas. Cada ósculo ofertado era motivo de uma ânsia prazerosa. Um mar de contentamento fazia surgir um continente novo. Quando amanheceu ainda se ouvia a canção. O sol avermelhado brotava pelas brechas das cortinas. Enconchados, insaciáveis, não davam pausa entre um verso e outro... Havia uma energia etérea que enchia aquele espaço. Algo nitidamente azul, rejuvenescedor. Qualquer alma incrédula acreditaria naquele ambiente místico. A nitidez daquele colorido ofertado por aquela cena era um fato. A flexão das luzes como uma aurora boreal nas paredes daqueles instantes era um fenômeno inefável. A vida agora tinha uma placidez outonal que caberia numa bela fotografia. Todas as manhãs do mundo estavam contidas naquela manhã... A noite passada engolira todas as noites que já existiram. Agora dos olhos dele jorravam carinhos de primavera. Agora há mel na fonte dos seios dela. Há um rio perfumado que sai do seu ventre. Há um esplendor, há um quê criador na voz dela agora. Quando ela ordena, o sol desaba obediente, a lua desce, boia na boca do oitão, e tudo acontece, de novo, novamente.

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Radyr Gonçalves é escritor, autor do livro 23:21 Quase meia-noite.
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