Teatro da Morte • Radyr Gonçalves

A BUSCA SILÊNCIOSA




O trem quebra por um instante os raios do sol que banham a minha janela. A única canção que ouço nesta tarde é a desarmoniza música dos pés do trem de ferro deslizando célere nos trilhos fantasmas. Eu sinto falta de alguma coisa que sei o que é e não sei descrever. É falta de algo que não posso tocar, mas que me envolveria se aqui chegasse. Nada chega ao meu endereço. Os correios em greve, o leiteiro morto, o lixeiro demitido. Ninguém passa pela calçada. Nada além do trem quebra o cristal do silêncio. Eu sinto falta de algo místico. De algo que me arrepie a medula, que mova minha glândula tireóide. Algo que arrebata a minha alma. O trem vai e só volta amanhã, quando ele passar e quebra o silêncio é como um brado de aleluias para mim. Eu queria acreditar em Deus, eu oraria por um trovão ou pela voz do vento, só pra quebrar este tempo parado.


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Radyr Gonçalves

Comentários

Anônimo disse…
Querido amigo avassalador... gostei da humanização do trem "com pés"... ele faz parte da vida do narrador como um amigo ou parente...ficou bem legal!
Inez disse…
Amei! É um lindo texto que harmoniza a calmaria com o barulho dos pés do trem, levando a um extase.
Esther cyrraia disse…
lindo e inspirado... que repouso ler-te em meio ao caos cotidiano! parabéns!
seguindo vc
xeru
Ariane disse…
Como já disseram nos comentários acima, é um lindo texto. E lendo-o, me identifiquei pois tu conseguiu traduzir em palavras um sentimento que sinto algumas vezes, essa falta, vazio...
Parabéns!
Abraços e obrigada por estar seguindo meu blog (Gazzeta Insana) ;D